Um grupo de brasileiros retornou ao país nesta semana em um voo fretado pelo governo dos Estados Unidos, mas o que deveria ser uma operação de repatriação pacífica se transformou em um relato de pressão, abusos e condições desumanas, segundo apurado pelo Brazilian Press. Os deportados desembarcaram no Aeroporto Internacional de Confins, em Minas Gerais, visivelmente abalados, muitos ainda trajando uniformes de detenção e carregando apenas sacolas plásticas com pertences mínimos.
Apesar de o programa de “deportação voluntária” ter sido apresentado como uma alternativa humanitária para imigrantes sem status legal, os brasileiros afirmam que a adesão foi forçada. Muitos dizem ter sido mantidos por meses em centros de detenção nos EUA, submetidos a longos períodos sem alimentação adequada ou acesso a água potável. Alguns relataram que só puderam assinar os documentos de autodeportação minutos antes da decolagem, já dentro da aeronave, após a retirada das algemas.
Carlos Fagundes, 34 anos, contou que foi transferido entre oito penitenciárias diferentes em um período de apenas três meses. “Ficávamos até 20 horas sem comer. Viam a comida ali, na frente, mas não liberavam. Era tortura psicológica”, afirmou, ainda com marcas de algemas nos pulsos. O voo partiu de Nova Orleans, Louisiana, fez escala na República Dominicana e aterrissou em território brasileiro com 47 passageiros, todos com roupas idênticas e sem documentos pessoais — uma cena que surpreendeu até mesmo os representantes de organismos internacionais presentes na chegada.
Funcionários da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Ministério dos Direitos Humanos do Brasil, que acompanharam o desembarque, disseram estar “chocados” com o estado físico e emocional dos deportados. “Não esperávamos encontrar pessoas em tamanha vulnerabilidade. Alguns não tinham sequer como comprovar sua identidade para receber o auxílio prometido pelo programa”, afirmou uma assistente social que atuou no atendimento inicial, sob condição de anonimato.
O programa de deportação voluntária, criado durante a administração Donald Trump, permite que imigrantes deixem os EUA de forma acelerada em troca de assistência básica. No entanto, as denúncias levantam sérias dúvidas sobre a real natureza do “consentimento” dos envolvidos. Segundo apurado pelo Brazilian Press, muitos foram convencidos a assinar os documentos sob alegação de que seriam libertados mais rápido, mas sem pleno entendimento das consequências legais.
A Embaixada dos Estados Unidos no Brasil emitiu nota afirmando que “todas as deportações são conduzidas em conformidade com as leis americanas de imigração e com os mais altos padrões de segurança e respeito aos direitos humanos”. A nota, no entanto, não aborda especificamente as acusações de maus-tratos, falta de alimentação ou pressão psicológica relatadas pelos deportados.
Organizações de defesa dos direitos humanos já anunciaram que irão investigar o caso e pressionar por respostas tanto do governo americano quanto do brasileiro. Enquanto isso, os deportados seguem em situação de extrema fragilidade, muitos sem família no Brasil e sem recursos para recomeçar. “Voltei ao meu país como se fosse um criminoso. Mas tudo que eu queria era uma chance”, disse Fagundes, antes de ser encaminhado para atendimento psicossocial.